Beraká - Oração Familiar

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Autor: Maria Emmir O. Nogueira e Nicodemos Costa

Editora: Shalom

Idioma: Português 

Páginas: 79

Edição: 2014

Acabamento: Brochura

A Comunidade Shalom tem experimentado, ao longo dos anos, a fecundidade do matrimônio e da oração familiar em seu seio. Nessa perspectiva, com grande júbilo, oferece a todas as famílias que desejam iniciar ou aprofundar a vida de oração comum o "Beraká, oração familiar", um manual de oração que contribuirá para o crescimento espiritual e humano de todos os membros da família. Além de escrito numa linguagem simples, o livro traz um roteiro prático de como celebrar a presença de Deus em família.

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Trecho do livro

A palavra hebraica Beraká deriva da raiz bet-resh-kaf, sinônimo de “joelho”, “genuflexão” e “inclinação”, palavras que indicam respeito. Ela significa tanto o ato de abençoar como o de ser abençoado, ficar repleto de bênçãos. É uma expressão que designa uma ação recíproca de doação e de recebimento.

No entendimento hebraico, não é só Deus que abençoa o homem, este também abençoa Deus, isso se dá na perspectiva do louvor. A bênção é participação na ação salvífica de Deus, é uma forma de relacionamento com Ele.

No Antigo e no Novo Testamento, o termo abençoar compreende então dois movimentos: um descendente e outro ascendente. O primeiro tem como sujeito Deus e indica a Sua contínua ação salvífica e o dom de Seu amor misericordioso que desce até o homem.

O segundo movimento tem como sujeito o homem que se eleva até Deus pelo louvor, adoração, exaltação, invocação e gratidão.

No Antigo Testamento, no livro do Gênesis, Deus, criador e dispensador de todos os dons, abençoa as realidades criadas (Gn 1,22; Gn 1,28) e por toda a história da Salvação, começando por Adão e passando pela vida de Noé, Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, os juízes, reis e profetas. Deus assegura Sua própria presença junto a estes homens e estabelece com eles uma Aliança. Por outro lado, o homem bíblico é impelido a dar uma resposta a esta comunicação amorosa de Deus.

O homem tem a certeza de que sua vida encontra-se totalmente nas mãos de Deus e expressa sua gratidão através da oração e do louvor como se observa, por exemplo, no livro de Daniel (Dn 3,26ss e Dn 3,52-90) e de modo magnânimo no livro dos Salmos.

No Novo Testamento, nas histórias de Zacarias, Simeão, Nossa Senhora, dos discípulos e do próprio Jesus, observam-se exemplos de pessoas que abençoam – bendizem – ou que são alvos da bênção divina. 

Mas é em Jesus que a Beraká alcançará sua forma mais plena, pois nele se unem os dois movimentos da bênção, ascendente e descendente. Deus se inclina até o homem e o homem é elevado até Deus.

No Verbo Encarnado, Deus se manifesta plenamente ao homem e, imediatamente, suscita sua resposta perfeita.

Nos evangelhos, temos vários exemplos de Jesus que bendiz (rende graças) ao Pai: “Pai, eu te dou graças porque me escutaste...” (Jo 11,41); “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste...” (Lc 10,21). Mas é durante a última ceia que isso se torna mais explícito, quando Jesus “toma o pão, pronuncia a bênção..., toma o cálice, rende graças e o dá a seus discípulos” (Mt 26,26-27).

Na tradição hebraica, as expressões “pronunciada a bênção” (eulogêsas) e “depois de haver dado graças” (eucharistêsas) fornecem a síntese do duplo movimento ascendente e descendente da bênção.

Por isso, o termo eucharistia, tradução greco-cristã de Beraká, passou a designar toda a celebração da ceia do Senhor vista como fato que recapitula em si todas as bênçãos divinas concedidas ao povo da Aliança, que prefigura o cumprimento de todas as expectativas em Cristo, suprema bênção do Pai e que, fazendo memória in mysterio de toda a redenção, a realiza e a atualiza inteiramente para a salvação do povo da nova e definitiva Aliança.

Por tudo isso, a Igreja unida a Cristo e beneficiária de sua entrega total, “rende graças” ao Pai oferecendo-lhe o sacrifício perfeito de louvor, a oferta de Nosso Senhor Jesus Cristo.[1]

A bênção de Deus perpetua-se hoje na Sua Igreja através dos sacramentos, da imposição das mãos sacerdotais e dos diversos ritos de bênçãos (bênção dos noivos, dos lares, do trabalho, de um objeto etc.), bem como na família, a igreja doméstica, na qual os pais abençoam os seus filhos.

Espelho da Vida Intratrinitária

Todos sabemos como a vida intratrinitária é um mistério de amor muito acima da nossa capacidade humana de compreensão e imaginação. Graças a Deus, a Igreja vem em nosso auxílio dando-nos como indicações realidades que refletem, como um espelho, esta comunhão de amor a nós inacessível enquanto estivermos nesta terra. É o que acontece no caso do matrimônio e da família, apontados pela Igreja como arquétipo da Trindade:

“Porque, segundo o plano de Deus, é constituída qual ‘íntima comunidade de vida e de amor’, a família tem a missão de se tornar cada vez mais aquilo que é, ou seja, comunidade de vida e de amor, numa tensão que, como para cada realidade criada e redimida, encontrará a plenitude no Reino de Deus”(FC, 17).

Além de refletir e apontar a vida intratrinitária, a família, a partir da união dos cônjuges pelo sacramento do matrimônio, é sinal do amor esponsal entre Cristo e Sua Igreja. O próprio rito do matrimônio refere-se a este mistério ao não incluir na Eucaristia, na qual se celebra o matrimônio, o ato penitencial, pois quando o noivo está presente tudo é alegria. O noivo, ao celebrar o sacramento do matrimônio, representa Cristo que desposa Sua Noiva, pura, bela e sem rugas, representada pela noiva, que a tradição autenticamente cristã faz vestir-se de forma especialmente casta e bela.

A par do chamado a viver essas belas realidades espirituais, o matrimônio, ao gerar uma família, entra em estreita relação com o mistério da Encarnação do Verbo: “O mistério divino da Encarnação do Verbo está, pois, em estreita relação com a família humana. Não apenas com uma – a de Nazaré – mas de certa forma com cada família” (CF, 2).

Testemunha desses três grandes mistérios, a família deve sentir-se profundamente privilegiada pelo Senhor e louvá-lo com celebrações, cânticos e ações de graças. Como se tais privilégios fossem ainda pouco, a igreja doméstica é, ainda, a passagem para a principal corrente da civilização do amor: “Parece agora claro que a ‘civilização do amor’ está intimamente ligada com a família. Para muitos, a civilização do amor constitui ainda uma pura utopia. Pensa-se, com efeito, que o amor não possa ser pretendido nem imposto a ninguém: seria uma livre opção que os homens podem aceitar ou rejeitar.

Em tudo isto há alguma verdade. E, contudo, resta o fato de que Jesus Cristo nos deixou o mandamento do amor, tal como Deus no monte Sinai tinha ordenado: ‘Honra teu pai e tua mãe’. Portanto, o amor não é uma utopia: é dado ao homem como tarefa a cumprir com a ajuda da graça divina. É confiado ao homem e à mulher, no sacramento do matrimônio, como princípio fontal do seu “dever” e torna-se para eles o fundamento do mútuo compromisso: do conjugal primeiro, do paterno e materno depois” (CF, 15).

Tal compromisso de amor, que haure sua fidelidade e inviolabilidade dos mistérios da Trindade e de Cristo Esposo, está presente na celebração do matrimônio: “Na celebração do sacramento os cônjuges dão-se e se recebem reciprocamente, declarando a sua disponibilidade para acolherem e educarem os filhos. Eis aqui os pilares da civilização humana, que não podem ser definidos de outro modo senão como ‘civilização do amor’.

De tal amor, é expressão e fonte a família. Por ela passa a principal corrente da civilização do amor, que lá encontra suas ‘bases sociais’” (CF, 15). “O amor é a verdadeira fonte da unidade e da força da família” (CF, 10).

A família, assim como todas as outras formas de vida, é chamada à santidade, como diz nosso fundador em palestra no retiro dos casais da Comunidade de Vida Shalom de 2007: “Na beleza da diversidade dos estados de vida, é preciso afirmar o chamado e a vocação à santidade de todos os estados de vida. Em todos, Deus nos chama a trilhar o caminho da santidade e nenhum caminho para a santidade é um caminho natural. Precisamos saber disso”.

O Verbo assumiu nossa humanidade, mas nos elevou a uma dimensão sobrenatural. Sabemos, portanto, que apenas seguindo os impulsos naturais não chegaremos à santidade, pois pela força do que é simplesmente humano e natural, isso é impossível. Nossa humanidade anseia pela santidade, mas é incapaz de realizá-la. Porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus, nossa natureza almeja a santidade, busca a santidade original e, mais ainda, espera ser elevada no plano sobrenatural da filiação divina.

É importante lembrar que seremos santificados pelo Espírito Santo nos unindo ao mistério de Cristo, deixando unir a nossa natureza à natureza divina. Se simplesmente dermos livre curso à nossa natureza humana, nunca chegaremos aos altos voos da santidade, seja qual for o estado de vida.

O chamado à santidade não somente de um dos membros da família, mas de ambos os cônjuges e de todos os filhos, genros, noras e netos, implica dizer “sim” aos não pequenos desafios do amor que os cônjuges prometeram um ao outro e, por extensão, a todos os seus filhos, netos e parentela, durante o sacramento do matrimônio, em sua fidelidade tanto na saúde quanto na doença, seja na alegria ou na tristeza.

Tal chamado, efetivamente vivido no sacerdócio comum dos pais, constitui a “igreja doméstica”, isto é, lugar de santificação de todos os membros, onde Deus é o centro e o amor impele ao serviço de santificação uns dos outros e da humanidade inteira; lugar de autêntico culto a Deus por meio da oração familiar privada e litúrgica.

Para alcançar as graças necessárias a esta santificação, a Familiaris Consortio e a Carta às Famílias, ambas de João Paulo II, enfatizam a necessidade da participação familiar nos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, bem como a oração familiar tanto privada quanto litúrgica. A essa necessidade imprescindível, nossa vocação acrescenta o quanto é saudável a família inteira participar das Eucaristias dominicais na Comunidade, dos seus eventos abertos e de celebrações especiais como o Natal e a Páscoa, ainda que nem todos os membros da família estejam engajados na Comunidade e na Obra.

A Familiaris Consortio apresenta, a partir do número 59, algumas características da oração familiar:

“(...) oração feita em comum, marido, mulher, pais e filhos todos juntos e tem como conteúdo original a própria vida de família, que em todas as suas diversas fases é interpretada como vocação de Deus e atuada como resposta final ao seu apelo: alegrias e dores, esperanças e tristezas, nascimento e festas de anos, aniversários de núpcias dos pais, partidas, ausências e regressos, escolhas importantes e decisivas, a morte de pessoas queridas, etc.”

Com razão a exortação apostólica nos lembra: “Aos membros da família cristã podem aplicar-se de modo particular as palavras com que Cristo promete a sua presença: ‘Digo-vos ainda: se dois de vós se unirem, na terra, para pedirem qualquer coisa, obtê-la-ão de meu Pai que está nos céus. Pois onde estiverem reunidos, em meu nome, dois ou três, eu estou no meio deles’”.

Sobre a oração litúrgica, diz-nos a Familiaris Consortio:

“(...) uma finalidade importante da oração da Igreja doméstica é a de constituir, para os filhos, a introdução natural à oração litúrgica própria da Igreja inteira, no sentido quer de uma preparação para ela, quer de a alargar ao âmbito da vida pessoal, familiar e social (...) As diretivas conciliares abriram uma nova possibilidade à família cristã, que foi incluída entre os grupos aos quais se recomenda a celebração comunitária do Ofício divino. Assim também está ao cuidado da família cristã celebrar, mesmo em casa e de forma adaptada aos seus membros, os tempos e as festividades do ano litúrgico”.

Como recomendação mais importante sobre a espiritualidade da família e sua caminhada para a santidade, a Comunidade orienta a celebração do Ágape e do Beraká. É muito importante atentarmos que a Comunidade não os recomenda como ritos, mas como meios de autêntica santificação da família inteira.

Lembremo-nos de que a própria Igreja declara, com o reconhecimento dos nossos Estatutos, que o caminho espiritual da Comunidade Shalom é um autêntico caminho de santificação.

Isso serve não somente para nossa santificação pessoal, mas também para a santificação de toda a nossa família, uma vez que a forma de vida é parte integrante de nossa vida vocacional e constitutiva do Carisma Shalom, destinado a todas as formas de vida, como afirmamos no quarto capítulo da segunda parte do livro Belo é o Amor Humano: “Seria importante refletir sobre o fato de que a vivência plena do estado de vida ao qual cada um de nós foi chamado seja um dado essencial para nossa santificação”.

No nosso caso, dado essencial para a plena vivência da vocação. Jamais expressaremos bastante bem o quanto o estado de vida é parte essencial de nossa identidade, de nossa vocação, de nossa missão, de nossa santificação.

É belo vermos o cuidado especial que nosso fundador tem com relação à família, qualificada nos Estatutos como autêntico dom de Deus: é a única forma de vida na Comunidade que recebe orientações específicas para celebração do próprio estado, nos artigos 95 e 96 dos Estatutos.

Tal cuidado visa, em primeiro lugar, a contribuir para a santificação da família. Tem também como intenção proteger a família daquela que é considerada pelo fundador como a grande tentação, como citamos no mesmo capítulo de Belo é o Amor Humano: “No caso do matrimônio, a grande tentação é ser arrastado para viver de uma forma simplesmente natural, sem a transcendência do chamado que Deus nos fez”.

 O matrimônio diz respeito à natureza, mas diz também respeito ao sobrenatural, pois é um sacramento e, portanto, chamado a refletir um mistério de Deus. Assim como o celibato reflete Cristo que se fez celibatário em favor do reino dos céus, para doar Sua vida, viver Sua afetividade e sexualidade de forma doada em favor da Igreja, não somente em esponsalidade espiritual, mas também em Seu corpo, viver o matrimônio no plano espiritual é, além da esponsalidade física e fecunda em filhos, viver também como família a esponsalidade pessoal com o próprio Deus, e essa família consagrada a Deus pelo sacramento do matrimônio a serviço da Igreja.

Quando Deus não está no centro, o cônjuge tem expectativas com relação ao outro impossíveis de serem preenchidas, pois só Deus tem como corresponder às nossas expectativas. Cedo ou tarde tudo isso irá ser um prejuízo para os filhos e para o casal. O absoluto é sempre e somente Deus.

Viver o matrimônio e a família em nível humano, imanente, não colocando Deus no centro, é correr continuamente o risco de divisão, desavenças, desesperança, desunião, dominação e egoísmo que, infelizmente, podem ser detectados no matrimônio e família baseados em valores mundanos.

A celebração do Beraká, com seu conteúdo de louvor e ação de graças tão característicos da Vocação Shalom será, portanto, oportunidade de santificação da família, forma de proteção contra a tentação do mundanismo, mas também uma verdadeira escola de formação na fé e na oração, como dizem a Familiaris Consortio, número 60, e nossos Estatutos, no número 93.

Diz o Santo Padre:

“Elemento fundamental e insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o testemunho vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a mãe, enquanto cumprem o próprio sacerdócio real, entram na profundidade do coração dos filhos, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não conseguirão fazer desaparecer (...) Rezais o terço em família? E vós, pais, sabeis rezar com os vossos filhos, com toda a comunidade doméstica? (...) O vosso exemplo, na retidão do pensamento e da ação, sufragada com alguma oração comum, tem o valor de uma lição de vida, tem o valor de um ato de culto de mérito particular: levais assim a paz às paredes domésticas: “Pax hic domui!” Recordai: deste modo construís a Igreja!”

Fica evidente neste texto de João Paulo II, com citação de Paulo VI, que a paz no lar é construída através da oração.

A nós, que somos discípulos e ministros da Paz, diz nosso fundador: “A Comunidade favoreça que os pais assumam a sua missão própria de acolher com alegria o dom da vida e educar seus filhos na fé e no espírito do Evangelho, formando-os pelo exemplo e por palavras para a partilha, a docilidade e a pureza. Por suas próprias vidas, sejam para seus filhos mestres de oração, de fraternidade e de serviço. Pelo seu testemunho, reflitam para seus filhos uma vida dedicada ao amor de Deus e dos irmãos, cultivando a hospitalidade, o apostolado e a disposição ao sacrifício em vista do Bem”.

O Beraká vem, a um só tempo, atender as orientações da Igreja tanto à oração da família e oração litúrgica na família, quanto ao convite de louvor, ação de graças e intercessão tão característicos de nossa vocação, que coloca sempre Deus no centro de tudo, dando-lhe a primazia. Bendizemos a Deus por todas as famílias que hoje dão testemunho dos inúmeros frutos da celebração do Beraká e da fidelidade ao que recomenda a Igreja e a Comunidade.



[1]. Cf. Dicionário de liturgia, p. 127.

 

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