Família - Relacionamento conjugal e Educação dos filhos

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Autor: Laura Martins e Ana Carla Bessa

Editora: Shalom

Idioma: Português

Páginas: 205

Edição: 2014

Acabamento: Brochura

Este livro é uma coletânea de artigos publicados na Revista Shalom Maná, das autoras Laura Martins e Ana Carla Bressa, que têm o desejo de divulgar o plano de Deus sobre a família e colaborar com os casais a vivê-lo com alegria, fazendo-os perceber a presença divina que os acompanha em tantas dificuldades.

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Trecho do livro


Este livro é uma coletânea de artigos da seção Só Família, publicada pela Revista Shalom Maná. Esta seção é um sinal da importância que a Comunidade Católica Shalom – assim como a Igreja – dá a essa instituição social, célula mãe de qualquer sociedade: a família. Se esta “adoece”, seus membros “adoecem” e, consequentemente, a sociedade também.

Os anos de trabalho na área da educação nos sensibilizaram para a realidade que a família vivencia no contexto atual. Realidade que, muitas vezes, apresenta desafios significativos para a preservação de valores essenciais à vida humana em cada sociedade. De modo especial, dirigimo-nos aos pais cristãos que anseiam sinceramente cumprir com dignidade sua missão e carecem de certa ajuda para isso, uma vez que existem tantas ideias que, em alguns momentos, complicam as escolhas que fazemos para educar cristãmente.

Tentamos, de alguma forma, aliar conhecimentos científicos aos valores cristãos e ao que nos orienta a Mãe Igreja, conscientes de que uma família feliz não se improvisa. Faz-se necessário esforço, reflexão e espiritualidade para caminhar com coragem, firmeza, sabedoria e ternura, a fim de educar filhos de Deus íntegros e solidários, cidadãos construtores de uma sociedade justa e fraterna, sinal do Reino entre nós.

Neste livro, apresentamos uma parcela de toda a riqueza que a seção, ao longo de sua existência, trouxe aos leitores da Revista Shalom Maná. Muitos outros autores, estudiosos no assunto, enriqueceram-na com seus artigos. A todos, os nossos agradecimentos, especialmente à Ana Carla Bessa, que disponibilizou seus artigos para esta publicação.

Consagramos este trabalho à Nossa Senhora, esposa do Espírito e nossa Mãe, pedindo sua intercessão. Que o Espírito Santo ilumine e fortaleça as famílias na busca de cumprir com alegria os desígnios do Pai a seu respeito – desígnios de santidade – desígnios de felicidade.

Ana Laura Martins

Missionária da Comunidade Católica Shalom

Parte 1

Vida conjugal: uma missâo a dois

“O matrimônio é um trabalho de ourivesaria que se constrói todos os dias ao longo da vida. O marido ajuda a esposa a amadurecer como mulher, e a esposa ajuda o marido a amadurecer como homem. Os dois crescem em humanidade e esta é a principal herança que deixam aos filhos.”

Papa Francisco

Encontro com noivos na Praça de São Pedro, 14 de fevereiro de 2014

Amor Conjugal: oásis fértil no deserto do mundo[1] 

Deus é amor. Fomos criados por amor. O Pai, no Seu amor infinito, em um ato de doação de si, cria o homem, como filho, à Sua Imagem e semelhança, capaz de amar e de receber amor. Deus quer a relação de uns com os outros. A comunhão com Deus faz o Seu amor circular entre nós.

A nossa comunhão com os seres humanos e com as criaturas faz circular o amor de Deus pelo mundo. Assim, tudo se vê envolvido no amor. A essência de Deus nos move em Sua força para a relação, para a aliança, para o amor mútuo.

O matrimônio foi instituído por Deus desde a criação do homem e da mulher. Ele os criou para a comunhão, para a complementaridade e para que, na diversidade, construíssem a unidade, tendo como referência a própria Trindade, modelo de comunhão e unidade. Todas as culturas exaltam, de alguma maneira, a grandeza do matrimônio!

Amor conjugal: sacramento do Deus Amor

Pela união sacramental dos esposos, eles se tornam expressão do amor da Trindade, amor de unidade, de comunhão e de oferta de si, da mesma forma como Cristo amou e se ofertou à Sua Igreja e por ela deu a vida. Por meio dos cônjuges, Deus dilata Sua família a cada dia. O Espírito Santo é a fonte do amor e a força que faz crescer este amor entre os dois, ampliando-se nos filhos que Deus lhes confiar, em vista da construção do Seu Reino, de amor e de paz.

O Amor Trinitário se derrama sobre nós, Suas criaturas amadas, em três dimensões interligadas: o Amor Ágape (como o amor de uma mãe por seu filho. O Pai que cuida do mundo, como uma mãe de seu filhinho); o Amor Eros, associado à paixão de amor, ao deleite da união; e o Amor de Phillia (de amizade), que está associado à aliança de amor.

É fundamental para a felicidade do casal a vivência dessas três dimensões do amor: a sadia sedução, a amizade recíproca forte e a doação de si ao outro. A seguir, refletiremos sobre cada uma dessas dimensões.

Amor Eros

É força que me impulsiona ao outro e ao grande Outro por meio dos sentidos. Assim, podemos experimentar este amor por meio da beleza, na natureza, na arte em suas diversas manifestações (como a música, a pintura, etc.). É o amor Eros que atrai um ao outro, mas ele não sacia o coração do homem. Está condenado à carência, à miséria, à infelicidade e a estar sempre incompleto.

Com a ajuda desse mediador, que é o Eros, podemos sair da pobreza para chegar à riqueza, da ignorância para chegar ao conhecimento, do material para chegar ao espiritual e à contemplação do Belo em si mesmo.

O enamoramento é essa experiência em que há uma transformação radical da sensibilidade, da mente, do coração. Duas pessoas, ao enamorar-se, tornam-se indispensáveis uma a outra. Quando o Eros consegue o seu objetivo, tranquiliza-se, mas depois se aborrece. Tem o que já não lhe falta. É um poder que, em todo ser, tende e anseia à plenitude. Não só a sexualidade está estreitamente vinculada ao Eros, também o está o desejo de realidades espirituais sedutoras, como a beleza espiritual. Graças ao Eros, o filósofo tem paixão pela sabedoria, e o místico tem paixão por Deus (Eros cognitivo – Paul Tillich teólogo).

 Amor de Phillia

É menos instintivo, não é uma paixão, não é um dever. É amor, é virtude, é desejo de presença, mas não é Eros. É agradável, útil e supõe generosidade e entrega. Consiste mais em amar do que em ser amado. É celebrar uma presença, mas não é pedir, é dar graças.

Amigo é aquele que melhor nos conhece, com quem se pode contar, com quem se partilha recordações, esperanças e temores, felicidades e infelicidades. Onde existe amizade autêntica, surgem outras virtudes espontaneamente. Supõe a criação de espaços de “encontro”, de divertimento, nos quais predomina o “nós”. Implica em cultivar: compreensão, adaptação aos ritmos naturais do amigo, cordialidade e ternura, veneração pela dignidade do amigo, perseverança e confiabilidade. A amizade requer ser cultivada. Existe uma arte a aprender. Pode ser uma escola de virtude quando encaminhada para o bem do outro e que deve também, de alguma forma, transbordar para os outros.

Eros e Philia podem andar juntos, mas não se confundem. Eles se misturam quase sempre, mas quando o Eros se vê satisfeito, desgasta-se e morre, enquanto que o Philia se engrandece cada vez que se vê satisfeito. O amor Eros, quando centralizado em si mesmo, é reducionista, limitando-se à autossatisfação mútua, mas quando é ampliado para além de si, em vista do Bem, ele gera realização, experiência de doação e unidade. O amor de amizade também é limitado e alcança poucos (10 a 20 pessoas), mas existe uma forma de amor mais universal e perfeita, que realiza e plenifica – é o Amor Ágape.

 Amor Ágape, para além do Eros e do Philia

É o amor que possibilita a abrangência universal e incondicional e que nos possibilita amar os inimigos, os que nos são indiferentes, os que nos incomodam. É o amor perfeito de Deus, revelado em Jesus e por ele provado na entrega total de si, por amor. É o amor do Pai que doa Seu Filho unigênito para resgatar os filhos amados. É o amor do Espírito que se aniquila para habitar em nós. Foi o amor que moveu os profetas no Antigo Testamento e os santos a perseverarem na fé, mesmo diante dos inúmeros desafios. Foi o amor entre os discípulos que os fez amar até o extremo de estarem dispostos a dar a vida uns pelos outros. Deus não cria servos, mas filhos livres, chamados à liberdade.

O Amor Ágape exerce a função de horizonte em relação ao amor Eros e Philia. Impede que tanto um quanto o outro permaneçam prisioneiros de si mesmos. Impulsiona-os a irem além de todo o espaço delimitado de um e de outro. É este amor, cuja fonte é Deus, que ama o homem e a Ele se dá, dando-lhe a dignidade de filho, seduzindo-o e atraindo-o a si por meio do amor em suas três dimensões: Eros, de Philia e de caridade.

Bento XVI propõe a relação circular entre o amor Eros e Ágape: “Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimensões (entre amigos, entre casal, entre Criador e criatura), na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral”. Eros e Ágape não se encontram em dois planos distintos ou contrapostos, representam duas atitudes e duas formas de amor estreitamente correlacionadas entre si. O Eros, embora seja inicialmente ambicioso, depois, à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, doar-se-á e desejará “existir para” o outro (Deus caritas est, 7).

Nesse caminho, existe uma sadia tensão pela transcendência pessoal e dual em direção a um “nós”. E, vivido em Deus, no Seu amor, tende ao crescimento, à comunhão de alma, de coração, de corpo, de bens, na saúde, na doença, na tristeza, na alegria. O amor conjugal, portanto, deve abarcar essas três dimensões (Eros, Phillia e Ágape), que, interligadas e bem ordenadas, transformarão a família num oásis transbordante de vida, em meio ao deserto do mundo sedento de amor autêntico.

 

 



[1] Artigo de Laura Martins, publicado na Revista Shalom Maná, nº 211, fevereiro de 2011.

 

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